Gabriel Marquim

Bom dia a todos e a todas.

Antes de tudo, gostaria de expressar a minha alegria em poder participar novamente deste simpósio tão importante quanto necessário. Reunir jovens do mundo inteiro que se dedicam a construir um mundo mais solidário, nestes tempos difíceis, é urgente.

Venho hoje dar uma notícia. Como alguns de vocês se recordam, no ano passado, vim apresentar a ideia de uma casa que atendesse pessoas que moram nas ruas. Aquilo que era somente uma ideia, tornou-se realidade. Há três meses, abrimos a Casa Vincular, um espaço que atende diariamente pessoas que moram nas ruas da cidade de onde eu venho, no Brasil. Um lugar marcado por uma grave desigualdade social. Todos os dias, recebemos pessoas que se tornam, pouco a pouco, invisíveis para a maior parte da sociedade.

Pessoas como dona Maria, de 70 anos. Ela decidiu ir morar nas ruas depois que o seu filho se envolveu com drogas, e passou a agredi-la. Com medo de que ele fosse vítima da violência dos traficantes, e para não se desentender com o filho, a mãe preferiu ir para as ruas. Pessoas como Sabrina que, por causa de sua orientação sexual, foi expulsa de casa pelos pais e, hoje, precisa se prostituir para poder comer. Pessoas como Tomás, de 20 anos, que mendiga um sabonete para tomar banho alguns dias da semana.

Essas pessoas, todos os dias, estão mergulhadas na invisibilidade, vítimas de um mundo veloz e competitivo, incapaz de parar e dar respostas concretas a essas necessidades.

Daí porque a Casa Vincular se tornou uma necessidade inegociável e urgente. Porque no meu país, e talvez em muitos dos seus países, cresce o número de pessoas abandonadas, pobres, sem condições para criarem um futuro digno. Infelizmente, a produção de riquezas cresce, mas ela não está sendo dividida de forma equilibrada.

Como foi possível tornar a Casa Vincular uma realidade? E como fazer para que esse tipo de experiência seja multiplicado? Primeiro, reunindo um grupo de pessoas realmente interessadas em transformar o mundo. Sim, transformar o mundo. Com os jovens, ou nós apresentamos ideais grandes e metas altas, ou eles não se movem. Se nós queremos mobilizar os jovens para serem protagonistas, não podemos economizar nos sonhos. Porém, ao mesmo tempo, é importante fazer com que esses jovens se comprometam e levem a sério aquilo que fazem. Depois de sonhar, sentamos e colocamos metas claras e objetivas para serem cumpridas, reunindo o poder público e privado, os meios de comunicação e a opinião pública para nos ajudarem a reunir o dinheiro necessário. E conseguimos! Em pouco mais de quatro meses, arrecadamos o que era necessário para começar e manter a Casa por quatro meses.

Hoje, a Casa Vincular atende diariamente, em média, 50 pessoas que moram nas ruas ou estão em grave vulnerabilidade social. Desempregados, viciados em drogas, pessoas em conflito com a lei, crianças doentes, idosos abandonados. Além do almoço que é servido, eles são convidados a tomar banho, um serviço básico, mas essencial. Nossas próximas metas são duas. A primeira: oferecer atendimento multidisciplinar em saúde. A segunda: oferecer cursos e oficinas de capacitação profissional para jovens e adultos, para que eles sejam inseridos no mercado de trabalho, e atividades para que as crianças saiam das ruas e não sejam aliciadas pelo crime.

Para que isso seja possível, a Casa necessita de um recurso mensal de 22 mil reais, algo em torno de 7 mil dólares. Gostaria da ajuda de vocês, se possível, para conseguir essa quantia.

É importante dizer que a Casa Vincular é um desdobramento da Comunidade dos Viventes, uma instituição católica que reúne centenas de pessoas no Brasil, principalmente jovens. Sim, a fé deve ser traduzida em gestos concretos, e é fundamental, nestes tempos de fundamentalismos, ensinar aos jovens que a fé, se verdadeira, seja ela qual for, nunca é instrumento de intolerância, ódio ou guerra. Mas, ao contrário, a fé nos ensina a dialogar com aqueles que pensam diferentemente de nós, além de nos ajudar a construir um mundo mais fraterno. As religiões são uma das organizações no mundo que mais possuem a capacidade de mobilizar as pessoas. Não podemos negligenciar essa força se queremos fazer os jovens construírem um mundo solidário. Você, jovem, que está me escutando agora, e professa uma fé, você tem uma responsabilidade. Unamo-nos.

É possível mudar a situação dessas pessoas. É possível, necessário e inadiável. Não podemos nos acostumar com seres humanos que se tornam invisíveis, mera paisagem nas nossas cidades. Eles estão perto das nossas casas, pedindo dinheiro no trânsito, dormindo debaixo de viadutos, competindo com os animais pelo lixo. Cabe a cada um de nós tirá-los da invisibilidade, e nutrir esperança neles, ajuda-los a sonhar novamente com uma nova história.

Nós, jovens, temos um papel fundamental nisso. Como é possível que a nossa criatividade esteja criando as mais avançadas tecnologias, mas se acostume com a fome, a solidão e a miséria de tantos? Não podemos! E, eu sei, não queremos. Eu acredito que a nossa geração pode, e deve, recuperar a capacidade de sonhar, e realizar, um mundo mais justo, solidário e fraterno. Só haverá futuro se for assim. E esse futuro começa agora, em mim, em vocês. Façamos a nossa escolha. Muito obrigado.

Related

Youth as Stewards of Our Planet for a More Fraternal and Supportive Society

Casina Pio IV Youth Symposium 14-15 October 2017 - Our era is one of great tension and... Read more